Número 62 Mayo-Agosto / Maio-Agosto 2013

Índice

O skate como prática corporal e as relações de identidade na cultura juvenil

Emerson Luís Velozo *
Jocimar Daolio **

* Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.
** Professor da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Brasil.

SÍNTESE: Este artigo se propõe analisar o skate como uma prática corporal vinculada à cultura juvenil, portadora de significados específicos, de acordo com os diferentes grupos sociais e, ao mesmo tempo, refletir sobre as possibilidades de abordá-lo como uma manifestação da cultura corporal, perspectiva que escapa às iniciativas pedagógicas das instituições escolares. Ao mesmo tempo em que o skate constitui-se como uma prática portadora de importantes significados para os grupos de praticantes, ocupando uma posição central para estes atores sociais, por outros grupos ele é visto de maneira marginalizada. Isso poderá ser observado tanto a partir dos elementos que dotam esta prática de significados «positivos» para os seus adeptos, como pelas características às quais outros grupos atribuem um sentido «negativo». A descrição que será apresentada conta com observações das práticas de um grupo de skatistas e com os relatos de um dos participantes do grupo, aqui caracterizado como nosso informante, um jovem estudante de uma escola de ensino primário e secundário localizada em Lisboa, Portugal.
Palavras-chave: Prática corporal; Skate, Identidade; Cultura Juvenil.
EL skate como práctica corporal y sus relaciones de identidad en la cultura juvenil
SÍNTESIS: Este artículo se propone analizar el skate como una práctica corporal vinculada a la cultura juvenil, portadora de significados específicos en relación a diferentes grupos sociales. Al mismo tiempo, el texto trata de reflexionar sobre las posibilidades de abordar el skate como una manifestación de la cultura corporal, perspectiva que escapa a las iniciativas pedagógicas de las instituciones educativas. El skate se constituye, por un lado, como una práctica portadora de importantes significados para sus grupos de practicantes, ocupando así una posición central; mientras que por otro lado, por otros grupos es visto de manera marginalizada. Esto puede ser observado tanto a partir de los elementos que dotan a esta práctica de significados «positivos» para sus adeptos, como por las características a las cuáles los otros grupos atribuyen un sentido «negativo». La descripción que será presentada cuenta con las observaciones de las sesiones prácticas de un grupo de skates, y con los relatos de uno de los participantes del grupo. Éste es aquí caracterizado como nuestro informante, un joven estudiante de una escuela de educación primaria y secundaria localizada en Lisboa, Portugal.
Palabras clave: Práctica corporal; Skate; Identidad; Cultura Juvenil.
Skateboard as corporal practices and relations of identity in youth culture
ABSTRACT: This article aims to analyze the skateboard as a corporal practice linked to youth culture which carries specific meanings according to different social groups and, at the same time, it intends to think about the possibilities of approaching skateboard as a corporal culture manifestation, perspective that escapes the educational initiatives of the schools. As well as skate consists itself in a practical full of important meanings for the practicing groups, by occupying a central position for these social actors, on the other hand it might be marginalized for others. This can be observed both from the elements that endow this practice of «positive» meanings for its appreciators or from the characteristics to which other groups ascribe «negative» meanings. The description that is going to be presented count on observations of skaters group’ practices and on one skater’ report, who has been characterized as our informant, a young student from a primary and secondary school located in Lisbon, Portugal.
Keywords: Practice body; Skate, Identity, Youth Culture.

1. Introdução: o skate como manifestação do corpo na escola

Buscamos tencionar as relações estabelecidas entre a prática do skate e o trabalho pedagógico escolar a partir da análise da construção da identidade do grupo de skatistas e das representações sobre ele produzidas no interior da sociedade em que está inserido. Isso foi possível a partir do contato cultural com uma escola de ensino primário e secundário localizada em Lisboa, Portugal. Tal contato foi caracterizado pelo esforço de realização de um exercício etnográfico ao tentar compreender a cultura que se apresentava. Assim, tomamos como pressuposto, aquilo que Clifford Geertz (1999) chama de um esforço para uma descrição densa da cultura, ou seja, a descrição da «hierarquia estratificada de estruturas significantes». Outro pressuposto importante para as observações realizadas se caracterizam por aquilo que Roberto DaMatta (1978) chamou de familiarização do que estranho e estranhamento do que é familiar. Desta forma, a partir de observações e de elementos narrados pelo informante – um praticante de skate participante do grupo, de 18 anos de idade, aluno da escola, e que cursava o 2.º ano do Ensino Secundário – construímos um interpretação sobre o skate como prática corporal e as relações de identidade na cultura juvenil formada por alunos de uma escola portuguesa.

Desde o primeiro contato que tive com a escola pude perceber o envolvimento de um grupo de alunos com a prática do skate. Diariamente, os seus integrantes dedicavam-se a fazer suas manobras no pátio da escola, aproveitando as escadas, degraus, bancos de concreto, entre outros obstáculos que a arquitetura oferecia. Entretanto, a escola proibia a prática do skate em seus ambientes, o que para aquele grupo de alunos se constituía como um desafio, visto que os mesmos insistiam em romper com esta norma escolar. Esta proibição foi motivada pelo risco de acidente que esta prática pode agregar, respaldada em casos anteriores envolvendo escola. Mas, mesmo com esta proibição, vários alunos desafiam as normas e os riscos com os seus skates pelo pátio da escola nos momentos que antecedem o início das aulas e também durante os intervalos. Esta atitude é caracterizadora de uma cultura juvenil contemporânea, que demarca certo estilo de vida e dota os integrantes do grupo de uma identidade específica. Porém, quando alguns dos alunos subiam em seus skates, logo aparecia o inspetor da escola, que lhes chamava a atenção e os fazia parar com a prática. O aluno que insistia em levar o skate para a escola sabia o risco que estava correndo, que era o de ficar sem o seu equipamento, pois se o inspetor o pegasse, não devolveria mais.

Questões como estas possibilitam visualizarmos certas representações que esta prática corporal tem adquirido na sociedade contemporânea e também as tensões que conformam a construção das identidades dos jovens que com ela se relacionam. Identidades que não podem ser vistas como objetivas e absolutas e nem como meras opções subjetivas, mas como relacionais (Cuche, 1999) ou como construções simbólicas que se produzem em relação a um referente (Ortiz, 1999). Neste caso o referente em questão é o skate, ou mais apropriadamente, os jovens que com ele se relacionam. Esta construção da identidade juvenil entre os skatistas não ocorre sem tensões, explicitadas nas relações de força e poder produzidas pelas representações forjadas pelos diferentes grupos sociais. A escola, como espaço de mediação de significados, não pode se furtar de um tratamento reflexivo sobre o skate como uma importante prática corporal constituinte da cultura corporal de movimento contemporânea. A discussão apresentada no texto não esta atrelada unicamente às questões escolares, entretanto, é da escola que se parte para situar uma variedade de aspectos caracterizadores do skate como cultura juvenil, como as representações sobre o seu caráter subversivo, a formação de grupos ou tribos urbanas, as identidades corporais vinculadas às vestimentas e tatuagens, e as relações construídas com os meios de comunicação, as marcas e os ídolos.

2. Saúde e barulho como aspectos de negação do skate

Se os alunos tentam infringir a norma da escola, os funcionários tentam fazer com que ela seja cumprida. Os professores também compartilham desta mesma ideia, pois não veem o skate como uma prática corporal que possa ser praticada na escola nos horários livres, como acontece com o futebol e o voleibol, por exemplo. Os professores da escola, em geral, e os de Educação Física, em especial, também não demonstram muito apoio à prática do skate. Alguns professores a veem com certa indiferença e poucos são os que proporcionam algum tipo de incentivo ou entusiasmo aos praticantes, como podemos perceber no relato de Bruno.

Há professores que gozam comigo, porque estou sempre de muletas. Há uns que dizem que faz um barulho infernal. O meu professor de Educação Física diz que faz muito mal. Faz mal aos pés, às costas. É um desporto como outros, não é? Há desportos que dão lesões que ficam pra vida, não é? Eu pelo menos nunca parti nada, só entorse e não sei quê. Tenho amigos meus que fazem futebol, basquetebol ou coisas assim e que partem o pé (Bruno).

Por ser um tipo de prática corporal, o skate poderia ser um conteúdo da cultura de movimento tratado nas aulas de Educação Física, mas, na realidade, isso parece estar longe de acontecer. Há uma ideia de que as atividades físicas e as práticas esportivas realizadas nas aulas devem trazer benéficos à saúde, ou então, aproximar-se dos «esportes olímpicos » . As atividades desenvolvidas em aula são voltadas para a construção de um estilo de vida ativo e saudável, ou então, para o aprendizado das modalidades esportivas (vistas também como saudáveis), sendo que aquilo que não se ajusta a estas premissas não terá espaço algum nas aulas. A aplicação dos testes do «Fitnessgram » nas aulas de Educação Física é exemplo maior da preocupação com tratamento «objetivo » dos parâmetros relacionados à saúde física dos alunos.

A identificação da aula de Educação Física com a prática de atividades compreendidas como saudáveis é utilizada para explicar a ausência do skate como possível tema a ser abordado nas aulas.

O skate começou com miúdos que eram tipo drogaditos e essas coisas. Por isso eu acho que ele não transmite tanto a ideia de ser saudável. Acho que coisas como vôlei, judô, essas coisas todas, vale a pena falar nas aulas, mas o skate eu acho que não, porque ele não transmite uma ideia de ser tão saudável (Bruno).

Desta forma, constrói-se uma visão estereotipada do skate e de seus praticantes, a partir de uma dupla identificação do skate com a noção de atitude não saudável. A primeira está relacionada aos problemas de saúde física que podem ser gerados por possíveis acidentes decorrentes da prática do skate. Entretanto, os praticantes têm clareza de que o comprometimento da saúde física não é um problema exclusivo do skate. Eles argumentam que outras práticas corporais como, por exemplo, o futebol, que tendem a ser vistas pelas pessoas como esportes saudáveis, que tais práticas também podem expor as pessoas a riscos de acidentes imediatos ou a problemas de saúde em longo prazo. A segunda identificação diz respeito ao tipo de pessoas que se envolvem com o skate. Pessoas sobre as quais a sociedade teria produzido uma visão estereotipada que as associa ao fumo, às bebidas e às drogas, portanto, ligadas a práticas pouco saudáveis. Esta dupla-identificação do skate com fatores depreciativos à saúde contribui para configurar a imagem negativa que esta prática ainda possui para determinadas pessoas ou grupos.

Questões como estas foram observadas no estudo de Améstica et al. (2006), que apontam que os grupos de skatistas geralmente são estereotipados ou estigmatizados devido às suas condutas, que por serem representadas como formas de delinquência, associadas ao consumos de drogas e ao modo de se vestir e de se comportar, são vistas como desviantes.

Este tipo de problema que permeia a prática do skate, ligado à saúde e ao comportamento dos jovens, parece não ser suficientemente debatido nos espaços educacionais, mais especificamente nas escolas e nas instituições formadoras de professores, de maneira a romper o as representações de senso comum sobre esta pratica corporal. Em resumo, a associação do skate a uma imagem que se tornou negativa perante a sociedade dificulta que no contexto em questão ele seja tratado pela escola e especialmente pela Educação Física como um conteúdo digno de tratamento pedagógico. O skate estaria na «contra-mão » dos parâmetros e atitudes aceitos como saudáveis e que simbolizariam a própria finalidade das aulas de Educação Física.

Além da ideia de estilo de vida pouco saudável, há outro aspecto ao qual é atribuído um sentido negativo ao skate. Os adeptos o praticam em ruas, escadas, corrimões, ou seja, em qualquer lugar. Isso acaba acarretando alguns problemas, pois grande parte das pessoas que circulam nas proximidades dos locais onde estão os skatistas não gosta do barulho provocado por esta atividade. Os praticantes acabam assumindo que o barulho pode ser realmente algo inconveniente para as outras pessoas, mas dificilmente desistem de praticar. O problema aumenta em dias de chuva, pois nessas ocasiões é necessário procurar espaços mais protegidos, mas estes locais, por serem cobertos ou fechados, produzem ecos das batidas dos skates e das falas destes rapazes, o que aumenta ainda mais o barulho. Isso incrementa o incômodo às outras pessoas de modo que os skatistas já tiveram problemas até mesmo com a polícia. Quando a polícia é chamada para resolver a situação, eles geralmente são expulsos dos seus espaços de prática. Não chegam a apreender o equipamento, mas também não permitem que continuem a praticá-lo.

Os praticantes afirmam que há lugares apropriados para a prática de skate em Portugal, mas alegam que as câmaras municipais, as juntas de freguesias, as autarquias, em geral, não cuidam suficientemente dos skateparks, que acabam estragando, ficam cheios de buracos, de maneira que ninguém consegue mais andar . Há pessoas que gostam de ver os skatistas a praticar, gostam de ver as manobras, pois as acham difíceis e complexas, mas há também aqueles que simplesmente os veem como jovens marginais, delinquentes, desocupados. Mas, independentemente do fato de as pessoas gostarem ou não de ver os praticantes praticando com seus skates, quando fazem muito barulho acabam causando problemas e são expulsos dos locais onde estão. Isso faz com que alguns deles reconheçam-se como um grupo marginalizado.

3. Algumas representações positivas

Cabe agora ressaltar alguns aspectos responsáveis pela atribuição de significados positivos ao skate pelos grupos de praticantes. O envolvimento com o skate faz com que os praticantes participem de grupos de amigos, unidos por um mesmo objetivo. Boa parte dos amigos dos skatistas também faz parte do grupo, o que lhes proporciona a sensação de serem como uma «família » . Tais grupos podem se localizar em diversos locais como na própria Lisboa e também em outras regiões de Portugal, como o Algarve, que fica ao sul do país ou também no Porto, mais ao norte do território português. Sempre que podem, os adeptos participam de campeonatos, tanto regionais como nacionais, seja para assistir junto com os amigos ou para competir. Eles procuram acompanhar, mesmo que não presencialmente, as competições que julgam mais importantes, como o «Circuito Mundial » e também os campeonatos em que há participação de skatistas portugueses.

Eles andam de skate sempre que podem, pois além de gostarem, querem melhorar cada vez mais a técnica. Para eles o skate é uma prática que dá sentido à vida, além de muito prazer. Ela está relacionada com o prazer de fazer as manobras, com o envolvimento com o círculo de amigos que se identificam com o skate e outras coisas afins, e com vários outros motivos que fazem com que, diariamente, eles subam em seus skates e comecem a andar.

Por exemplo, hoje posso agarrar no skate e nem estar com muita vontade e vou só andar. Estou a andar, começo manobras novas e isso dá prazer. Ou então há dias em que eu to cheio de pique e não sai nada. Mas eu acho que no skate o que dá mais prazer é acertar as manobras, porque nós nos esforçamos. Muitas vezes dói porque o skate bate nas canelas, ou porque caímos mal. Depois, quando acertamos, é como se fosse um objetivo que conseguimos (Bruno).

4. Corpo e identidade: as vestimentas e tatuagens

Outra questão interessante diz respeito ao estilo de vida dos skatistas e está relacionada a aspectos como o modo de se vestir, o gosto musical, o uso de tatuagens, os entretenimentos, etc. É comum que eles constituam um grupo de pessoas que se identificam com determinadas coisas para além da prática do esporte. Quando estão reunidos, o principal assunto presente em suas conversas é sempre o skate.

Falamos de filmes de skate ou viste aquele gajo, ou campeonato, geralmente é assim. Ou então estamos sempre a jogar Playstation. Jogos de skate, jogos de futebol. Há um que é o Guitar Hero, que é uma guitarra. Fingimos que estamos a tocar guitarra. Os skatistas são muito vidrados na música, desenhos, estas coisas. Normalmente só costumam ouvir rock ou pop, mas há outros que fazem misturas. A música influencia um bocado o estilo. Há aqueles que ouvem mais rock e usam calças justinhas, tipo anos 60, 70, cabelos muito grandes entre outras coisas (Bruno).

Há um modo de se vestir relativamente específico entre os skatistas que participavam do contexto investigado. A grande maioria deles possui preferência por calças bastante justas para andar de skate, embora haja também aqueles que preferem as calças mais largas. A maior parte das vestimentas está relacionada com a questão de estilo adotado pelos praticantes. Mas, diferentemente das calças e camisetas, que são escolhidas muito mais por uma questão de estilo, como é o caso das calças justas ou largas, o tipo de tênis usado pelos skatistas atende também a aspectos relacionados à funcionalidade. Para os praticantes, o tênis deve contribuir para que as manobras sejam executadas da melhor maneira possível. O formato do calçado, o tipo de sola utilizada e a sua resistência são características valorizadas no momento de escolha do tênis. As marcas que se especializam na «cena » do skate acabam tendo preferência entre os praticantes, pois além de se tornarem símbolos entre os skatistas, atendem a determinado estilo adotado nesta prática e produzem calçados cuja funcionalidade agrada os consumidores.

Por exemplo, se eu ando de skate, não vou estar a comprar, por exemplo, calças de fato de treino assim, tipo Adidas ou coisas assim, porque se calhar, primeiro rasgam mais depressa, e depois se calhar, elas não têm jeito como aquelas calças de marcas tipo a Vans. A Vans é das marcas que estão aí há mais tempo. Estas solas são todas costuradas, são vulcanizadas, etc. É só porque estas marcas conhecem. E eu prefiro, mesmo que gaste um bocadinho mais de dinheiro numa coisa que me dê jeito, do que estar a gastar dinheiro à toa numa que eu não conheço e depois vou ter que gastar dinheiro outra vez porque não gostei daquela. Roupa é um caso relativo, é o que for, mas os tênis são sempre importantes, porque servem mesmo para andar de skate (Bruno).

Os diferentes estilos de se vestir dos jovens também se confrontam com o estilo exigido nas aulas de Educação Física, pois os alunos não podem participar das aulas com qualquer tipo de roupa, mas apenas com aquelas que permitam a realização de atividades físicas. Por isso, a fidelidade a determinado estilo de roupa terá que ser rompida para a execução das aulas e eles terão que adotar vestimentas mais esportivas nestas ocasiões. Mesmo usando cotidianamente um tipo de roupa específica para a prática do skate, que é também uma prática corporal, para as aulas de Educação Física, os alunos precisam trocar de vestimentas. Na escola, não havia nenhuma exigência do uso de uniformes, nem para as aulas de Educação Física e nem para as aulas de outras disciplinas. O que se exigia era que nas aulas de Educação Física os alunos vestissem um tipo de roupa bem esportiva, como tênis, camiseta, calção, bermuda ou calça. O importante na vestimenta era que ela permitisse que os alunos fizessem as atividades sem nenhum prejuízo. Entretanto, o fato de precisar trocar de roupa, ou seja, abandonar o estilo usado no cotidiano parece não incomodar muito os alunos, pois eles veem as aulas como um espaço que realmente necessita de uma vestimenta mais específica. Deste modo, o corpo, a partir do vestuário, dos alunos também conforma a noção de identidade nas aulas de Educação Física .

No caso dos skatistas, é comum que suas roupas estampem temas associados ao skate, seja pelos símbolos relacionados às marcas que fabricam as vestimentas especializadas neste esporte, seja pelo uso de camisetas com propagandas de eventos e de produtos, entre outros elementos que se possuem relação com esta modalidade.

O desenho estampado na camiseta é muito sugestivo e pode nos dizer algo sobre a noção identitária vinculada, com frequência, pelos praticantes de skate. A camiseta é de um campeonato da Volcom , que busca na adoção de desenhos como este, produzir um vínculo atrativo entre o seu produto e os praticantes do skate. Desta maneira, elementos que denotam a ideia de serem alternativos, como piercing, tatuagens entre outros, são bastante apropriados no universo desta prática corporal. O estilo adotado pelos skatistas possui bastante relação com exaltação da diferença, com a adoção de um comportamento alternativo. Deste modo, tanto aqueles que andam de skate, como os que já andaram e não o praticam mais, parecem possuir um vínculo muito forte com esta prática.

Há muitos que olham e dizem «olha, aquele já tem não sei quantos anos e ainda parece um puto a andar de skate». Mas há muita gente, pelo menos os do skate, que veem o skate como uma maneira de se libertarem do normal. Em vez de quererem ser pessoas que usam fatos e gravatas e que vão todos os dias para o escritório ou para um sitio qualquer, eles preferem ficar na deles, curtir a vida, que é também só uma e ficar na boa. Então, as tatuagens permanecem em muitos deles que deixam de andar. Mas mesmo que deixem de andar gostam sempre de ter aqui, tipo no braço, nas pernas ou onde for, a dizer que são skaters pra sempre, até morrer (Bruno).

Práticas sobre o corpo, como o uso de tatuagens, também são bastante comuns entre os skatistas, apesar de atualmente esta ser uma prática bastante difundida entre um número cada vez maior de pessoas. Na cultura ocidental e moderna as tatuagens possuem significados bastante distintos se comparados com as organizações tribais . Vimos nas últimas décadas uma verdadeira revolução dos significados atribuídos às tatuagens em nossa cultura. Pode-se dizer que elas passaram de um status «marginal» para um status «central». Isso porque elas eram associadas a indivíduos ou grupos não considerados como «bem enquadrados» na sociedade. Eram práticas associadas aos transgressores, subversivos ou até criminosos. Atualmente, com os seus significados redefinidos, elas passaram de uma situação periférica para um lugar central, principalmente entre a juventude. Numa linguagem mais popular poderíamos dizer que a prática da tatuagem virou «moda». Atualmente as tatuagens fazem sentido para um número cada vez maior de pessoas, que marcam os seus corpos com signos originários de diferentes culturas, mas, em grande parte das vezes, sem o mesmo sentido atribuído pela tradição de origem. Nesse sentido contemporâneo, as tatuagens não são mais a expressão de rebeldia e transgressão, mas, em sua dimensão cultural, atuam como aquilo que Geertz (1989) descreve como «mecanismo de controle do comportamento».

É cada vez mais crescente o surgimento de publicações que divulgam informações sobre as tatuagens e que podem ser adquiridas em qualquer banca de revistas. Há também programas televisivos que dedicam um espaço diário ou semanal para o tema . Além desses veículos, há uma variedade de portais e comunidades sobre o assunto na internet. A presença da tatuagem nos meios de comunicação remete ao caráter estético que estas adquirem na atualidade. Grande parte dos depoimentos feitos pelos indivíduos que divulgam as suas tatuagens nesses veículos de comunicação indica que a dimensão estética é preponderante na escolha do desenho. A beleza pretendida pela tatuagem pode ser retratada a partir do desenho de símbolos, imagens, animais, pessoas, ou seja, uma infinidade de figuras que transmitam os significados e os valores que o indivíduo pretende demonstrar .

Entre os jovens que participam do grupo de Bruno, os temas das tatuagens normalmente têm a ver com o skate.

Tem um que tem tatuada a marca de uma tábua de skate, que foi o primeiro patrocínio dele, e então, quis tatuar. Ele, que mora no Algarve, ligou e falou «tenho uma cena muito louca pra te mostrar e não sei o quê». Nunca mais tirou o patrocínio. E continua com o mesmo patrocínio. Faz o estilo dele. Cada marca tem um objetivo. Cada marca tem uma linha por onde seguir. Então há marcas que procuram pessoas que usam coisas mais largas e outras que procuram pessoas que usam coisas mais apertadas, mais de um gênero, outras de outro. Acho que aquela era a marca que fazia mais sentido pra ele e ela a favorita dele (Bruno).

5. Revistas, marcas e ídolos: a dinâmica dos significados locais/globais

O skate tornou-se uma prática corporal muito difundida, a partir da sua divulgação pelos meios de comunicação, através da mídia televisiva, da internet e também de revistas especializadas. Com frequência os praticantes compram revistas especializadas na divulgação do em skate. Entre elas estão algumas revistas norte-americanas que trazem informações sobre o skate no mundo todo, como a Thrasher Magazine, a Trasnsworld Skateboarding e a Skateboarder. Há também uma revista portuguesa, a Onsk8, de periodicidade trimestral e que traz um resumo geral do que acontece em Portugal.

É a partir de veículos como esses que os skatistas obtém a maior parte das informações sobre o que acontece no mundo do skate. Eles também constituem-se como espaço privilegiado para a divulgação das imagens dos ídolos desta modalidade. Os vencedores dos campeonatos e aqueles que se destacam pelo estilo de suas manobras aparecem sempre em destaque, tornando-se referências para os outros praticantes. As imagens dos ídolos aparecem frequentemente associadas a determinadas marcas de produtos, sejam eles relacionados ao skate ou não. Desta forma, a hierarquia simbólica que classifica os melhores skatistas tende a embutir também uma classificação sobre as marcas dos produtos a eles associadas. Quem acompanha o universo do skate sabe bem quem são os melhores nesta modalidade e sabe também quais são as marcas de produtos que se destacam. Neste sentido, os grandes skatistas, que vencem os principais campeonatos, tornam-se referência para os outros praticantes.

Os que andam melhor servem de motivação porque o skate é uma coisa que nunca para de evoluir. Sempre alguém está a andar qualquer coisa melhor e isso motiva muito. Então aqueles que andam muito melhor, quando vemos em campeonatos ou revistas ou coisas assim, motiva. E queremos fazer chegar lá, só que é difícil. Mas motivam bastante (Bruno).

As relações identitárias com o skate acontecem de forma predominantemente vinculadas à ideia de «grupo » . Os skatistas, na maioria das vezes, pertencem a determinado grupo de praticantes, que compartilham entre si os significados atribuídos a este esporte. Pensar nos significados desta prática a partir de grupos específicos exige que sejam levadas em consideração as dimensões espacial e temporal em que eles se localizam. Isso quer dizer que qualquer grupo que possamos estudar estará impreterivelmente localizado num tempo e espaço específico, o que dota a cultura em questão de um caráter «local » . É o que acontece com o grupo a que Bruno pertence. Ele situa-se em Lisboa numa época específica e, como é de se esperar, sofre todas as influências do contexto espacial e temporal a que pertence. No entanto, esta localidade da cultura do skate vivida por este grupo é atravessada por outra escala, mais macroscópica, que organiza os referentes identitários em nível mundial. Esta outra escala é explicitada pelos referentes que se colocam fora dos limites territoriais de um local específico, como uma cidade, uma região ou um país.

Os campeonatos profissionais, as marcas e produtos relacionados ao skate, e os meios de comunicação são exemplos de elementos que atuam nessa dimensão mais macroscópica de atribuição de significados. As competições profissionais organizam-se desde o nível regional e nacional até os campeonatos mundiais, nos quais são produzidos os ídolos, figuras de inestimável importância para o desenvolvimento deste esporte na sua forma atual. Tanto os atletas que participam destas grandes competições como os conteúdos que nelas são veiculados tendem a se tornar referencias para os demais praticantes, nos diversos contextos locais, ou seja, mais microscópicos, em que esse esporte seja praticado. Os produtos lançados no mercado encontram-se cada vez mais especializados na «cena » do skate. Isso faz com que as diferentes marcas propaguem a ideia de que satisfazem os aspectos «essencialmente » técnicos , necessários para a prática adequada do esporte e, além disso, transformem-se em «emblemas » para os praticantes, que sabem muito bem a diferença simbólica que possui estampar em suas vestimentas uma ou outra marca.

Os meios de comunicação apresentam um papel destacado em todo esse processo. Assim como os meios de transporte, eles encurtam as enormes distâncias que antes afastavam rigidamente as diferentes partes do globo. Se os meios de transporte possibilitam, por exemplo, que as pessoas se desloquem por grandes percursos em pouquíssimo tempo para participarem das competições em nível mundial, ou garantem que os produtos esportivos sejam exportados pelos países fabricantes para os mais distantes locais do globo, com os meios de comunicação o que ocorre é muito semelhante. A diferença é que nesse caso não se trata especificamente do deslocamento de pessoas ou de produtos, mas de informações. Esta é uma característica da sociedade atual: temos muita informação sobre quase tudo o que acontece no mundo todo. E com os eventos esportivos não é diferente. Há quase um excesso de programas televisivos que divulgam as informações esportivas, de jornais e revistas especializadas em esportes e centenas de sites na internet que disponibilizam informações com acesso bastante facilitado ao adepto. O skate está imerso neste universo em que os signos trafegam constantemente nessas vias da cultura mundializada. Isso nos dá, cada vez mais, a sensação de que realmente «somos todos contemporâneos » , como afirma Augé (1997).

6. Considerações finais

É possível pensar o skate na contemporaneidade a partir de uma dupla relação identitária, levando em consideração os significados que ele possui para o grupo de praticantes e para os não praticantes. Para os primeiros, o skate se constitui como prática que dá sentido às suas vidas e detém um valor efetivamente positivo. Eles praticam, participam de competições, consomem os produtos, isto é, vivem este universo do skate. Para os segundos, que não se identificam da mesma forma com este esporte, ele pode assumir características de admiração, de indiferença ou até mesmo de desconfiança e preconceito. A relação com os hábitos e atitudes vistas como pouco saudáveis e os problemas relacionados com o barulho e com a postura dos praticantes faz com que este esporte não conquiste direito à cidadania em alguns contextos e, em alguns deles, assuma uma reputação marginalizada. Estes dois tipos de identificação colocam o skate em posições diferentes que variam de acordo com o contexto, podendo ser «central » para um determinado grupo ou «periférico » para outro.

A não aceitação do skate na escola está sujeita a uma dupla interpretação. Por um lado, pode-se ressentir da sua ausência como conteúdo da cultura corporal de movimento, tratada pedagogicamente nas aulas de Educação Física. As características presentes nas representações sociais que se tem sobre esta prática, em boa medida, colocam-na numa posição extremamente periférica como conteúdo cultural, principalmente pelo fato de que no contexto investigado, o skate não se ajusta com os valores de saúde e de esportividade que orientam o trabalho pedagógico. Esta «indignidade » do skate transcende o espaço/tempo das aulas de Educação Física, visto que ele apresenta rejeição em outros espaços/tempos sociais, como os momentos antes do início das aulas, nos intervalos entre elas, e algumas vezes mesmo em ruas e praças. Por outro lado, a ausência do skate como conteúdo pedagogicamente tratado pela educação escolar pode denotar outro sentido para o grupo de praticantes, visto que como uma prática representativa da cultura juvenil, que se manifesta como alternativa e não submissa aos valores hegemônicos vinculados ao estilo de vida saudável e à moral esportiva manifestos na sociedade, ele resiste a ser domesticado por uma pedagogia escolar que, ao aceitá-lo como conteúdo de ensino, poderia demolir a estrutura subversiva constitutiva desta prática corporal.

Referências

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Para preservar a identidades do informante, utilizamos neste texto um nome fictício, Bruno.

«Práticas corporais » se caracterizam pelas manifestações culturais relacionadas ao corpo. É mencionada na literatura acadêmico-científica brasileira como uma noção alternativa ao conceito de atividade física. (Lazzarotti Filho et al, 2010).

Alguns termos como «cultura física» (Betti, 1992), «cultura corporal» (Soares et al., 1992), «cultura do movimento» (Kunz, 1994) e «cultura corporal de movimento» (Bracht, 1999), têm sido utilizados no interior do campo acadêmico da Educação Física para designar os elementos culturais com os quais a área mantém relação, como os jogos, os esportes, as danças, as ginásticas e as lutas. Neste texto farei uso do termo «cultura de movimento».

A aptidão física também é um quesito avaliado nas aulas de Educação Física. São aplicados testes para avaliação da aptidão aeróbia, da composição corporal, da força e da resistência muscular e da flexibilidade. Com a aplicação da bateria de testes «Fitnessgram » espera-se mensurar o nível de aptidão física e monitorar o grau de atividade física dos alunos, com o pressuposto de melhoria das suas condições de saúde física.

Os problemas relacionados ao barulho poderiam ser minimizados com a construção e manutenção de locais apropriados para esta prática, pois o skate é um esporte que tem crescido bastante nos últimos anos e cada vez mais rápido. Por isso, a construção de melhores espaços para a sua prática e ainda a manutenção dos locais já existentes é entendida pelos grupos de skatistas como uma providência importante para o desenvolvimento da modalidade.

Isso também ocorre em relação à vestimenta do professor, que se constitui como mais do que um artefato utilitário, um vestuário necessário e próprio para a realização das atividades nas aulas. Muitos professores chegavam à escola com um tipo de vestimenta que variava de acordo com a preferência de cada um e lá trocavam pelos tradicionais agasalhos esportivos. No entanto, ao longo das aulas eles não faziam nenhum tipo de atividade que exigisse «vestimentas funcionais», como é o caso dos agasalhos esportivos, apropriados para atividades físicas. Isso mostra que o uso do agasalho não se justifica pelo tipo de atividade feita pelos professores. O que explica, então, o fato de eles usarem este tipo de vestimenta em todas as ocasiões de aula? O vestuário esportivo é, podemos dizer, um símbolo que exprime certa identidade sobre o professor de Educação Física. O uso deste tipo de agasalho faz parte da tradição da área, de maneira que o professor é facilmente identificado pelo tipo de vestimenta que usa. As roupas não são apenas equipamentos funcionais que protegem do frio ou que escondem a nudez, mas se constituem concretamente em símbolos que dizem muito sobre a sociedade em que vivemos e os grupos a que pertencemos. Além disso, a exibição de marcas esportivas nas roupas forma constelações de significados responsáveis por atribuir maior ou menor status a quem as veste, dependendo do grupo e do contexto social em que se apresentam.

Maria Eduarda Guimarães (2005) mostra que as camisetas se tornaram modos de comunicação do corpo com o mundo. A autora chama a atenção para o modo como o gesto de transmitir mensagens utilizando camisetas é uma prática que se popularizou entre os jogadores de futebol, como forma de comunicação com a torcida.

A Volcom é uma marca de roupas originária da Califórnia e especializada em produtos para skaters, surfistas e snowboarders.

Célia Ramos (2005) descreve a importância de elementos como a terra e o corpo na construção da identidade cultural nas organizações tribais. Nesse sentido, a autora cita os Maoris, como um povo que tinha a tatuagem facial como uma forma sagrada, que era privilégio das autoridades do clã. As tatuagens eram, então, totalmente dotadas de significados orientados pela tradição cultural do grupo e tinham por objetivo tornar evidentes as relações hierárquicas entre os indivíduos. Isso porque, para os Maoris, as tatuagens eram providas de uma força sagrada, sendo que o seu uso era permitido entre os indivíduos considerados nobres e, consequentemente, proibido aos escravos. Tal prática, que teria sido extinta no século xix por consequência do processo civilizatório, voltou a vigorar entre os Maoris nos dias de hoje. Mas a questão é que as tatuagens não apresentam mais os mesmos significados de distinção social que antes possuíam. Agora são ornamentos inspirados nos antepassados, desenhados livremente com fins puramente estéticos.

Este é o caso do programa «Miami Ink II», transmitido diariamente em Portugal pelo canal People+Arts, na época do estudo.

Um exemplo é dado por Célia Ramos ao relatar a busca pela imagem de um herói do imaginário cinematográfico norte americano, por um dos seus entrevistados: «Diz um jovem: O índio, eu fiz há tempo. Eu acho o índio bonito, tem um espírito guerreiro e tem uma coisa a ver com a natureza. O índio é a sabedoria, ou a necessidade de sabedoria. Na época, o índio era o americano. O índio brasileiro eu não gosto. Tem aquele cabelo de cuia. Eu gosto do americano, com tranças e um montão de penas» (Ramos, 2005, p. 97). A autora também destaca a beleza como critério de escolha adotado por outro jovem, que afirmou ter tatuado o deus Krishna nas costas, simplesmente porque gostou do desenho. Nesse sentido, a imagem nas costas do indivíduo, segundo Ramos, perde a sua sacralidade original. Em muitos casos, «a tatuagem expressa antes um desejo de beleza decorativa do que uma admiração ou crença» (Ramos, 2005, p. 97). Estas transformações nos sentidos atribuídos à tatuagem remetem às novas significações pelas quais as práticas corporais têm passado em sua história. No entanto, na sociedade contemporânea os novos significados das práticas corporais parecem estar atrelados a várias disposições estéticas características da modernidade avançada.

 

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