Chamada para o monográfico "Saúde mental e educação na infância ibero-americana"

2026-07-13

Até ao dia 28 de fevereiro de 2027 está aberta a convocatória para o envio de colaborações destinadas ao volume monográfico 103 (janeiro-abril) da Revista Iberoamericana de Educación (ISSN 1022-6508), que terá como título: Saúde mental e educação na infância ibero-americana.

A saúde mental de crianças e jovens é, atualmente, um dos problemas mais documentados e, simultaneamente, dos mais subestimados pelas políticas educativas. Não se trata de um fenómeno novo, mas evidencia-se – um pouco por todo o mundo - o seu agravamento acelerado, justificando que o assunto não possa mais ser tratado como uma responsabilidade exclusiva do setor da saúde. À escala global, pelo menos um em cada sete adolescentes vive com uma perturbação mental diagnosticável; metade dessas perturbações estabelece-se antes dos 14 anos e três em cada quatro antes dos 24, coincidindo o pico de prevalência precisamente com o período de escolarização obrigatória (UNICEF e OMS, 2024; UN News, 2024).

A interdependência entre saúde mental e aprendizagem constitui hoje um resultado robusto e replicado, com implicações diretas para as políticas educativas. Crianças e jovens em sofrimento psíquico apresentam défices mensuráveis de atenção, memória de trabalho e autorregulação - funções cognitivas de base sobre as quais assenta toda a aprendizagem -, pelo que o mal-estar emocional não é um obstáculo paralelo ao percurso escolar, mas antes um impedimento direto da capacidade de aprender. A infância e a adolescência constituem, além disso, uma janela de desenvolvimento neurológico única, na qual o stresse tóxico precoce deixa marcas mensuráveis cujo custo de recuperação aumenta em fases posteriores.

A esta fragilidade acresce a dimensão digital. As tecnologias desempenham um papel ambivalente: podem ampliar oportunidades de aprendizagem e de conexão, mas podem também intensificar o isolamento, a dependência e a sobrecarga cognitiva. Estudos internacionais de grande escala, como o HBSC/OMS, documentam o aumento do uso problemático de redes sociais entre a população adolescente, com maior risco entre as raparigas, enquanto a UNESCO adverte que a violência em contextos digitais compromete diretamente o direito à educação e a saúde emocional de estudantes e famílias.

A evidência sobre determinantes sociais obriga, por seu lado, a alargar o quadro de análise para além do domínio clínico e escolar. A adversidade precoce - o maltrato, a negligência, a violência doméstica - continua a ser o preditor mais robusto de deterioração da saúde mental ao longo do ciclo de vida, o que coloca a família e a articulação intersectorial (saúde, educação, proteção social) como peças centrais de qualquer estratégia séria neste domínio. Simultaneamente, a investigação alerta para o risco de transformar as instituições educativas no último recurso da intervenção social: sem protocolos claros, formação específica e redes de referenciação, a escola corre o risco de absorver uma exigência que não consegue resolver, em detrimento da sua própria missão.

A par da dimensão clínica e de política pública, torna-se indispensável uma dimensão humanista e comunitária: a escola como comunidade de comunidades, capaz de sustentar os imaginários coletivos, os vínculos e os quadros de sentido a partir dos quais crianças e jovens podem habitar, com maior liberdade e responsabilidade, um mundo crescentemente digitalizado. Estas reflexões, apresentadas e debatidas no Encontro de Alto Nível OEI - Santa Sé sobre Saúde Mental e Educação na Infância, realizado no Vaticano em 2026, evidenciam a necessidade de uma convergência sustentada entre ciência, política e ética.

A partir destas exposições e considerações prévias, solicitamos investigações e estudos que abordem, pelo prisma de diferentes disciplinas e perspetivas, os desafios e as oportunidades que a saúde mental infantil e juvenil coloca aos sistemas educativos ibero-americanos, bem como as respostas - pedagógicas, institucionais, familiares, digitais e de política pública - que permitam enfrentá-los.

As temáticas abordadas neste número monográfico são as seguintes:

  • Interdependência entre saúde mental e aprendizagem, incluindo as suas bases neurocientíficas e cognitivas e as implicações para o desenho curricular.
  • Determinantes sociais da saúde mental infantil e articulação intersectorial entre os sistemas de saúde, educação e proteção social.
  • O papel e os limites do sistema educativo, incluindo o risco de sobrecarga das escolas como último recurso da intervenção social e a sua função como nós de deteção e contenção.
  • Bem-estar e formação docente face às condições estruturais do trabalho escolar, incluindo estratégias de deteção precoce e prevenção do mal-estar profissional.
  • Famílias, adversidade precoce e parentalidade positiva, incluindo o vínculo escola-família como fator protetor.
  • Tecnologias digitais, saúde mental e regulação do uso de redes sociais em contextos escolares.
  • Dimensão ética, humanista e espiritual da educação como fator protetor do bem-estar infantil e juvenil.
  • Governança, medição de resultados e políticas públicas de saúde mental baseadas em evidência.
  • Participação infantil e juvenil com ênfase nos processos de desenho e implementação de políticas de bem-estar escolar.

Bibliografia:

 

Coordenadores/as:

Susana Costa Ramalho, Universidade Católica Portuguesa. https://orcid.org/0000-0002-7155-1649
Alex Villas Boas, Universidade Católica Portuguesa.  https://orcid.org/0000-0003-2779-1108
Alex Joseph Behn Berliner, Pontificia Universidad Católica de Chile. https://orcid.org/0000-0003-2070-7866

Notas:

- As normas de elaboração para o envio dos textos encontram-se disponíveis em https://rieoei.org/index.php/RIE/about/submissions#authorGuidelines

- Não serão aceites trabalhos fora do prazo fixado e que não se enquadrem na temática específica.