Chamada para o monográfico "Saúde mental e educação na infância ibero-americana"
Até ao dia 28 de fevereiro de 2027 está aberta a convocatória para o envio de colaborações destinadas ao volume monográfico 103 (janeiro-abril) da Revista Iberoamericana de Educación (ISSN 1022-6508), que terá como título: Saúde mental e educação na infância ibero-americana.
A saúde mental de crianças e jovens é, atualmente, um dos problemas mais documentados e, simultaneamente, dos mais subestimados pelas políticas educativas. Não se trata de um fenómeno novo, mas evidencia-se – um pouco por todo o mundo - o seu agravamento acelerado, justificando que o assunto não possa mais ser tratado como uma responsabilidade exclusiva do setor da saúde. À escala global, pelo menos um em cada sete adolescentes vive com uma perturbação mental diagnosticável; metade dessas perturbações estabelece-se antes dos 14 anos e três em cada quatro antes dos 24, coincidindo o pico de prevalência precisamente com o período de escolarização obrigatória (UNICEF e OMS, 2024; UN News, 2024).
A interdependência entre saúde mental e aprendizagem constitui hoje um resultado robusto e replicado, com implicações diretas para as políticas educativas. Crianças e jovens em sofrimento psíquico apresentam défices mensuráveis de atenção, memória de trabalho e autorregulação - funções cognitivas de base sobre as quais assenta toda a aprendizagem -, pelo que o mal-estar emocional não é um obstáculo paralelo ao percurso escolar, mas antes um impedimento direto da capacidade de aprender. A infância e a adolescência constituem, além disso, uma janela de desenvolvimento neurológico única, na qual o stresse tóxico precoce deixa marcas mensuráveis cujo custo de recuperação aumenta em fases posteriores.
A esta fragilidade acresce a dimensão digital. As tecnologias desempenham um papel ambivalente: podem ampliar oportunidades de aprendizagem e de conexão, mas podem também intensificar o isolamento, a dependência e a sobrecarga cognitiva. Estudos internacionais de grande escala, como o HBSC/OMS, documentam o aumento do uso problemático de redes sociais entre a população adolescente, com maior risco entre as raparigas, enquanto a UNESCO adverte que a violência em contextos digitais compromete diretamente o direito à educação e a saúde emocional de estudantes e famílias.
A evidência sobre determinantes sociais obriga, por seu lado, a alargar o quadro de análise para além do domínio clínico e escolar. A adversidade precoce - o maltrato, a negligência, a violência doméstica - continua a ser o preditor mais robusto de deterioração da saúde mental ao longo do ciclo de vida, o que coloca a família e a articulação intersectorial (saúde, educação, proteção social) como peças centrais de qualquer estratégia séria neste domínio. Simultaneamente, a investigação alerta para o risco de transformar as instituições educativas no último recurso da intervenção social: sem protocolos claros, formação específica e redes de referenciação, a escola corre o risco de absorver uma exigência que não consegue resolver, em detrimento da sua própria missão.
A par da dimensão clínica e de política pública, torna-se indispensável uma dimensão humanista e comunitária: a escola como comunidade de comunidades, capaz de sustentar os imaginários coletivos, os vínculos e os quadros de sentido a partir dos quais crianças e jovens podem habitar, com maior liberdade e responsabilidade, um mundo crescentemente digitalizado. Estas reflexões, apresentadas e debatidas no Encontro de Alto Nível OEI - Santa Sé sobre Saúde Mental e Educação na Infância, realizado no Vaticano em 2026, evidenciam a necessidade de uma convergência sustentada entre ciência, política e ética.
A partir destas exposições e considerações prévias, solicitamos investigações e estudos que abordem, pelo prisma de diferentes disciplinas e perspetivas, os desafios e as oportunidades que a saúde mental infantil e juvenil coloca aos sistemas educativos ibero-americanos, bem como as respostas - pedagógicas, institucionais, familiares, digitais e de política pública - que permitam enfrentá-los.
As temáticas abordadas neste número monográfico são as seguintes:
- Interdependência entre saúde mental e aprendizagem, incluindo as suas bases neurocientíficas e cognitivas e as implicações para o desenho curricular.
- Determinantes sociais da saúde mental infantil e articulação intersectorial entre os sistemas de saúde, educação e proteção social.
- O papel e os limites do sistema educativo, incluindo o risco de sobrecarga das escolas como último recurso da intervenção social e a sua função como nós de deteção e contenção.
- Bem-estar e formação docente face às condições estruturais do trabalho escolar, incluindo estratégias de deteção precoce e prevenção do mal-estar profissional.
- Famílias, adversidade precoce e parentalidade positiva, incluindo o vínculo escola-família como fator protetor.
- Tecnologias digitais, saúde mental e regulação do uso de redes sociais em contextos escolares.
- Dimensão ética, humanista e espiritual da educação como fator protetor do bem-estar infantil e juvenil.
- Governança, medição de resultados e políticas públicas de saúde mental baseadas em evidência.
- Participação infantil e juvenil com ênfase nos processos de desenho e implementação de políticas de bem-estar escolar.
Bibliografia:
- Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Mundial. (2024). El aprendizaje no puede esperar: Lecciones para América Latina y el Caribe a partir de PISA 2022. https://publications.iadb.org/es/publications/spanish/viewer/El-aprendizaje-no-puede-esperar-Lecciones-para-America-Latina-y-el-Caribe-a-partir-de-PISA-2022.pdf
- Leão XIV. (2026). Magnifica Humanitas: Carta encíclica sobre a dignidade humana na era da inteligência artificial. Libreria Editrice Vaticana.
- Organização Mundial da Saúde. (2021). Convertir cada escuela en un centro que promueve la salud: Guía de implementación. https://www.who.int/publications/i/item/9789240025073
- Organização Pan-Americana da Saúde. (2023). Una nueva agenda para la salud mental en la Región de las Américas. Informe de la Comisión de Alto Nivel sobre Salud Mental y COVID-19. https://www.paho.org/es/documentos/nueva-agenda-para-salud-mental-region-americas-informe-comision-alto-nivel-sobre-salud
- (2025). Plan de acción de la UNESCO para la prevención y el abordaje de la violencia en la educación en América Latina y el Caribe, 2025-2030. UNESCO Biblioteca Digital. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000396699_spa
- (2023). Informe Anual Global de Resultados 2023: Salud Mental. https://www.unicef.org/reports/global-annual-results-report-2023-mental-health
- UNICEF e Organização Mundial da Saúde. (2024). Un llamado conjunto para reforzar las políticas y la inversión en la salud mental y el bienestar de la infancia y la juventud. https://www.who.int/es/news-room/07-11-2025-joint-call-to-strengthen-policy-and-investment-for-child-and-youth-mental-health-and-well-being
- UN News. (2024). 1 de cada 7 niños y adolescentes afectados por trastornos de salud mental. https://news.un.org/en/story/2024/10/1155536
Coordenadores/as:
Susana Costa Ramalho, Universidade Católica Portuguesa. https://orcid.org/0000-0002-7155-1649
Alex Villas Boas, Universidade Católica Portuguesa. https://orcid.org/0000-0003-2779-1108
Alex Joseph Behn Berliner, Pontificia Universidad Católica de Chile. https://orcid.org/0000-0003-2070-7866
Notas:
- As normas de elaboração para o envio dos textos encontram-se disponíveis em https://rieoei.org/index.php/RIE/about/submissions#authorGuidelines
- Não serão aceites trabalhos fora do prazo fixado e que não se enquadrem na temática específica.





